Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

La Mort de Sardanapale

Hoje digo “Basta”. Basta de ilusões e de esperanças vãs. Basta de sonhos e de viagens proibidas. Paris já não exala magia ou amor. Paris transformou-se na velha prostituta de Pigalle, de collants rotos e boca de cieiro. As ruas já não caminham ao ritmo dos passos e a velocidade deixou de fazer sentido. Só no metro ganho o anonimato obscuro que a luz do dia cega sem sossego. Hoje estou cansada. Frustrada. Traída. Um dia o medo. No outro a esperança. Já nem o amor me chega. Amor e violência e morte. Espetados no quadro de Delacroix, no museu monstro que é o Louvre. À noite, as personagens desfazem-se da cola que os liga ao quadro e passeiam-se por Paris. Como fantasmas a espalhar o horror. As mulheres vão nuas, os cavalos ensanguentados, os elefantes levantam-se da cama e um Zé Ninguém com uma coroa assiste a tudo impávido. Sardanapale ou o mundo em que vivemos. Hipocrisias que compõem as horas, correrias de promessas e exílio de sentidos. Tudo na mesma tela que todos os dias se pinta de vermelhos puros e vingativos. Aqui, como aí, também há carniceiros e talhos a espirrar ameaças. Uma máfia portuguesa que vive escondida debaixo dos lençóis de dinheiro. Uma corja de silhuetas que cria marionetas e projectos de cristal. Foram criados à imagem da inveja e do poder. Foram feitos à imagem do palco onde hoje actuamos. Não vale a pena ser bom, competente ou eticamente correcto. Caminhamos sobre um lamaçal que fede e só os que pisam sem interrogar podem vencer. Num mundo de perdedores, o desemprego é lei. Mesmo no paris das maravilhas.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

“Há já muito tempo que não escreves como quem respira”

“Há já muito tempo que não escreves como quem respira”, diz-me ela de esguelha a partir de Cabo Verde. “É verdade”, respondo eu, não sem vergonha, dos lençóis de Paris. Se calhar porque a respiração arqueja. Mas a cidade continua deslumbrante e fria. Eu também. Agora caminho interminavelmente nas margens, a contar os segundos que correm e a esperar que passem mais rápido. Foi um ano cansativo, com muitas provas dadas, sempre a empurrar a motivação para o alto de Montmartre. Mas nem a catedral derruba as bastilhas que se nos impõem. São paredes. Daquelas que têm ouvidos de cêra e que correm a contar a cada pedra o mínimo rumor. Olha para elas com desdém. Pensam que podem rolar e derrubar vontades e desafios. Mas são pedras. Com olhos e ouvidos. Inanimadas, todos os dias. Durante um ano e meio. Agora acabou. As pedras ficaram pelo caminho e delas só ficam os sais.

Vou respirar a Beaubourg. Uma peça grita ainda “Le temps passe vite”. E agarro-me ao tempo. Afinal, esteve sempre do meu lado, limitado pelas muralhas. Os muros caem e fica um esboço de dois amantes. “Há já muito tempo que não escreves como quem respira”. Hoje estou a arfar. Apesar de tudo, resta-me Paris e o acaso que nos juntou.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

The Waste Land

A noite tombou às 14h30. De noite os olhares saltam das silhuetas e o dia fica mais claro. O céu de Paris continua pardo e convida os notívagos a passearem de metro. No meu bairro,em Jacques Bonsergent, as intimidades são segredadas nos passos lentos de uns e corridos de outros. A medo ou em tom desafiante. Naquela busca constante de histórias e devaneios. Corro atrás do metro. Recupero o fôlego. E Escrevo. Inspiro. Paris flutua debaixo dos meus pés. Anoto os esgares de curiosidade, timidez e sensualidade que alguns me atiram. E continuo a escrever letras de sonhos e incoerências nas linhas enviusadas do corredor rolante de Chatelet les Halles. Às tantas, já deixei de olhar. Um olhar já não me basta. No sufoco dos rostos iguais aos dias, procuro a noite e a verdade. Procuro o encantamento. A vozearia abre-se quando desço as escadas da Fondation Cartier.Poemas, letras, textos em espiral e movimento, entoados pela voz de Patti Smith. Fotografo aquele momento algures no caos das memórias. “Realiser des polaroids est alors une experience qui me relie à l’nstant présent. Ce sont les souvenirs d’une joyeuse solitude ». Uma alegre solidão. Oiço. Oiço-me. Rimbaud, Blake, Pessoa em polaroid. O busto do homem no Chiado. Outro eléctrico a descer uma Lisboa na Land 250. A vozearia continua. “Half a man, half an angel”. Sigo. Entro na Shakespeare & Co, preciso de mais vozes, mais companhia, mais poetas, mais anjos, mais demónios. Pilhas de séculos à minha frente e eu a esculpir os meus dias numa longa noite de notívagos. As horas perseguem-me. Às vezes queria parar o tempo. A noite acaba ao pé do Canal Saint Martin, uma garrafa de bordeaux, banalidades e bem-estar. Depois é a música no Sattelit Café e a dança no Alimentation Générale. O tempo não parou, mas eu dancei com ele. Em Paris.

Quinta-feira, Abril 17, 2008

O único olhar igual ao meu.

Há poucas histórias que me conseguem perturbar. As que mais me tocam são as de sangue e de amor. Esta é a história do homem mais importante da minha vida. A minha referência, a minha raíz, a minha razão de ser. Chama-se Francisco. Durante muitos anos, houve uma parte da sua história que esteve enovoada. No esquecimento, na tristeza ou na vergonha, nunca percebi e nunca me contou. Até hoje. Estamos no topo da Tour Eiffel e os seus olhos são iguais aos meus. A mesma nostalgia, a mesma verdade. O reencontro acontece e pela primeira vez vê Paris depois de ter estado vinte anos fechado na rotina cigana de uma vila em Toulouse.

A aventura começa com uma fuga à guerra colonial. Não se apresenta ao serviço, não quer ser carne para canhão. Um profeta com a quarta classe e as mãos calejadas do calor alentejano. Tem 1400 escudos e decide abandonar o país. Mas ao contrário dos mihares de portugueses que dão o salto pela mão de passadores e fotografias rasgadas, faz-se à estrada com um amigo. Partem de Lisboa ao início da tarde, metidos no comboio que os leva até perto da fronteira. Aí, enfiam-se num tasco, bebem cerveja e comem as castanhas que entretanto foram colhendo pelo caminho. O dono do café vê mais dois que querem sair dali e, habituado, explica-lhes o caminho. Lá se fazem à montanha, mas os carreirinhos dispersam-se pela escuridão e passam a noite em círculo. O dia nasce, devagarinho, e eles cortam o mato sorrateiros, ao lado das raposas. Para evitar os “carabineiros”. O medo e as castanhas no bolso, lá caminham todo o dia e ao cair da noite encontram uma casa. Duas sihuetas desconhecidas a penetrarem na noite e a bater numa porta no meio do nada, só podem receber o silêncio em troca. Desistem e caminham mais. E mais. Só com as castanhas e a recordação da cerveja da noite anterior. Lá descobrem um tasco. E a generosidade volta a encher o copo. Aí passam a noite, e o dono do bar volta a orientá-los. A viagem parece estar quase no fim, perto que estão da fronteira francesa. Metem-se num combóio, sem bilhete, sem passaporte, sempre a passear de uma carruagem para a outra para nao serem descobertos. A Espanha é um risco, e serem vistos equivale ao expulsar imediato para Portugal. E, inevitavelmente, o Francisco sabe que o seu destino é ser enfiado no primeiro navio para o Ultramar. Estão já perto da fronteira, ainda é dia, quando chegam a outra povoação. Mesmo ao pé da “gendarmerie” francesa. Os “carabineiros” nunca os topam, ou se o fizeram o espírito de caçador do Francisco leva-o por caminhos que nem as lebres conhecem. Conseguem a meta da gendarmerie e ficam salvos. No dia seguinte, entram num combóio para Toulouse. No bolso, o alentejano ainda tem oitocentos escudos. A outra metade ficou no preço do bilhete que em França comprou para ele e para um burlão...O único desta história, que nem importância tem para ser figurante. Depois...Toulouse... E tantas outras histórias. Vinte anos de contos. Quis o acaso que eu nunca conhecesse nenhum deles em pessoa. Quis a sorte que eu só aparecesse na história de Francisco em Portugal. Quis o destino que vinte anos depois eu seguisse os passos do meu pai e hoje lhe mostrasse a Tour Eiffel.

Segunda-feira, Abril 07, 2008

Esse Tal Alguém


Sempre gostei das fotografias a preto e branco. Sempre me vi numa escala de cinza, com uns gradientes negros a escurecer o amendoa do olhar. E sempre gostei da obra ao negro. Depois, o branco aparece como desculpa, a tentar recuperar um perfil perdido no hoizonte. Quando fui apanhada neste momento, não estava em Rouen. Ainda hoje não sei onde estava. Ainda agora não sei onde estou. Perdia-me a olhar para o sujo das paredes e aentrar por janelas enevoadas. Lá dentro estava muito longe. Algures entre o cinza e o preto. Entre os piratas de uma praça soturna e medieval, com fantasmas a griarem silêncios perturbantes e fugas a girarem em espiral. Mais uma fuga para a terra de ninguém, onde nem o ninguém perturba. Mas há um tal alguém que por vezes espreita. E tenta brincar com as linhas insubmissas das casas de madeira, que não sabem onde estão os pilares. E tão perdidas ficam que descaem pelas ruas que cheiram a mofo e a cavaleiros perdidos e Joanas d’Arc inventadas. E memórias que se apagam, gastas como a fotografia reiventada. O cheiro a peixe de Dieppe já aqui chega e apetece navegar. Fugir mais uma vez, para aquelas terras que o vento cospe. Atirar-se para as ondas na esperança de rever mais uma vez um sorriso acinzentado. Vestido de negro. E dar tudo para morrer naquele sorriso.

Terça-feira, Março 11, 2008

Um Paris perdido no tempo

Foi na passage des Marais. As memórias apanharam frio e congelaram naquele olhar. Acordei com medo e terror. No dia seguinte, foi pior. Confirmou-se o temporal e a chuva caiu dias a fio. A fundo. A Tour Eiffel deixou de piscar. Quiseram as memórias entristecer e as fotografias regressaram ao tempo. Dias tristes e noites de silêncio. Quiseram as ruas ensombrar os caminhos e apagar as esperanças. O fim nem sempre é um princípio. Imagens que torturam, a paz nos graffitis desgastados. Paris é, por vezes, muito triste. E muito só.

Sábado, Março 01, 2008

Um rosto no metro.

Ja deixei a linha seis. Parei no metro e fiquei a olhar o cais. Aí esperei, “au fils du temps”. Não havia ninguém, nem olhares trocados. Os rostos cabisbaixos, uns olhos muito verdes e vermelhos das lágrimas que caiam. Esperei o metro. Ainda alguns 20 minutos. Ou 20 dias. Já não lembro. Mas sinto. Ali parada, num turbilhão de gente triste e apressada. 10 milhões de corações. Paris. Mas algo me despertou a atenção. E não foi a luz à saída do túnel de Place d’Italie. Foi o próprio mapa pendurado naqueles quadrados semi-brancos e semi-velhos. Linhas que se multiplicavam e jogavam como serpentes. Linhas que mentiam, outras mais directas. Mas todas com muitas mudanças. E tantos cais. E outros rostos. E novas paragens. E então percebi que o “navigo” é infinito e me permite experimentar todas as linhas. Para quê me limitar à seis e ficar a olhar para o passado?

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

Inverno.

Pisam as pedras descalços e sobem as escadas de mãos nuas. As janelas abrem-se e as portas não se conseguem fechar. O vento não cabe num copo e a tempestade esconde-se debaixo do gelo. Nem o lago se derrete com a luz e o olhar tão verde quanto azul suplica um réplica. Enquanto respiram, o frio aquece a pele e os dedos enlançam a ternura que ficará na ponte. Entre as muralhas medievais de Pont e as ruas estreitas, caminham sem pensar. Ele sente-a. Ela não. A mala perdeu-se no aeroporto. E ela também. Como os poemas esquecidos no livro. Como os voos adiados a néon e o silêncio pesado do avião a partir. Como os gritos que querem estalar o impossivel. Toda a beleza não consegue quebrar o frio glaciar de um inverno que não parece ter fim. De um tempo que já passou e de um epilogo que quer decidir o se destino.

Terça-feira, Outubro 23, 2007

“Naïvement unique” ... Sans photo... Avec flash...



Soluços de uma beleza reticente. Deitada no pólen de um halo transparente. Duas silhuetas atiradas contra o campo de ervas. Uma contra a outra.Vagas de saliva que encalham num porto tão deliciosamente inseguro. O campo é o cenário criado para eles. Por eles. Sem ninguém. Silêncios. E ternuras. Dedos que se erguem no horizonte e medos que se desfazem em desenhos aéreos.

A França dos camponeses e a ilusão de felicidade apaga a sol e feltro a beleza do outro passado, que não esquece, mas desaparece em vagas de tristeza.

Toquei o sol com a mão esse dia. Há um dia atrás. E tanto tempo já passou. Uma mão no sol e a outra na barba a despontar, rebelde de rosto. Os olhos entre o céu de azul e o olhar saturado de meiguice. No chão, o verde que abraça os lábios depois do sol. Sem fotografias mas com flash. Há momentos ingenuamente únicos. “Não há ruído entre nós.”E já sabe a saudade. As vacas continuam a fixar o retrato bem longe, tão penetrantes que escondem segredos. Nossos. De então. De agora. E ninguém sabe. Ela, raízes de campo, sorve o frio com os cabelos entre as ervas. Ele, sorve-a com beijos que se estendem em abraços sem tempo. Com lugar. “Ou o brilho das mentes sem lugar”. Deitados. Contra a terra. Contra o céu. Um contra o outro. Sonham o momento e vivem-no. Uma história de vacas e segredos. Uma história de curral castelo. Uma história de dois estrangeiros que se reconhecem. Algures em França. Ali bem no meio do mapa.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

Bom dia Carina!


Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Teoremas de lã


Mais uma vez e sempre no comboio. Olho para trás e ja nao lhe pertenço. Olho para a frente e nao sei se voltarei a pertencer. Quando fecho os olhos à paisagem que foge, vejo rostos que se esfumam no vidro e receio que seja a ultima vez. Estar longe é também ter medo. De partir para não poder voltar a dizer-lhes que parto. Um vazio intenso e uma tristeza montam pelo umbigo. A minha casa continua lá, à espera. Eu é que já não sei volto. Fecho os olhos outra vez e peço desculpa. Toulouse. Fafe. Fecho os olhos outra vez.

Abro-os para esquecer. E uma euforia bíblica de cores, sons, gritos e saltos estão comigo no Rock en Seine. Canções geniais de heresias profanam o meu espírito e um livro de néon esboça-se no ecrã gigante. São os Arcade Fire, um fogo profano de energia e luz que finalmente vejo ao vivo... Antes estava no Garden State, um jardim como outros, onde os Shins também picnicavam o som.

Depois uma caravela e a vontade de ir com os marinheiros. Numa volta ao mundo desconhecido, perdido no tempo e esquecido nos livros das estantes do mesmo barco. Há dias assim.

Quinta-feira, Julho 26, 2007

L'arrogance de la rue qui t'embrasse

Clic clac clic clac. O batimento cardíaco segue os saltos. Os passos gritam e acordam os edifícios ditos "haussmanianos" que a circundam. Na fachada a inscrição da Sorbonne. No chão uma montra de livros gastos. O cheiro a tabaco e o odor do álcool mimam o canto. A rua é curta e lança-se sobre o Panteão, onde os flashes cegam os que dormem no passeio. Um saco-cama improvisado com umas latas de cerveja derrubadas pelo relógo do dia longo. José dorme aqui bem acordado.Tem uma pele morena, uma tez teimosa e um olhar azul. Está em Paris há 31 anos e odeia a comunidade portuguesa. Gosta de viajar e tem filhos em Portugal, na França, na Holanda.É charmoso, simpático, giro. Tem vergonha de falar português e o francês está entranhado na boca. Assim como a inteligência dorida com que descreve a sua história. Já viajou um pouco por todo o lado e sabe muito. Sabe mais que aquela jornalista de salto alto que teima em conquistá-lo. Sabe mais do que os gajos d Cruz Vermelha que se pensam humanitários. Encostado ao BMW cinza, mostra a cicatriz que começa no meio das costas e termina para lá o rabo. A cicatriz cala-lhe a língua mas as mãos calejam histórias. Diz-me que a sua é a verdadeira. "Banal, mas genuína". Está a morar na rua, "e daí?!" "Tenho uma vida melhor que muitos que fodem ao pé da lareira". Sem se aperceber, cede ao olhar verde da jornalista e fala em português. "Um a zero", pensa ela. Mas os saltos não o enganam. E volta ao francês. No carrossel dos truques. A máscara fá-lo mais ele. E a vontade de se abrir fica colada à parede de graffiti. "Mas o que é que ela quer?..."- pergunta-se com o sorriso reflectido no feedback do vítreo verde dos olhos dela. "Mas o que é que ela quer?..." Perguntam-se.

Domingo, Junho 24, 2007

Mes amis, les parisiens...






Il y a des moments, des endroits, des visages, des amis. Il y a une mémoire affective. Des odeurs, des phrases, des sourires, des instants. Un passé encore présent. Un futur qui nous éloigne. J’ai toujours évité les adieux. Les histoires ne se répètent pas. Elles sont uniques et se revêtent d’une fatalité de fin. Alors, je dis jamais « au revoir ». Je préfère : « A la prochaine » ou « A demain »… Même si je sais qu’il n’y aura plus de café demain aux Buttes aux Cailles ou de dîner de poulet chez « les portugaises » ou de pâtes chez les « italiens ».
Aujourd’hui je me suis assise à cote de vous et je ne parlais pas. Au fond, je la sentait…La séparation a commencé pour moi et je vois déjà les regards que je ne reverrai plus tous les jours… Giuseppe ne pourra plus m’embrasser de tendresse. Napau ne prendra pas le café-confidence avec moi. Bárbara ne m’apportera plus son sourire constant qui rendait la journée d’une joie inévitable. Pink ne fera plus ses plats qui me faisait sentir en famille. Les yeux tristes de Pier Paolo ne feront plus partie d’un cercle de regards amis. Et Danielle est déjà partie en Italie. Mes amis d’aujourd’hui s’envolent et je reste avec mes ailles à Paris. Je reste seule et mes ailles se maintiennent ouvertes. Peut-être une voyage en Italie… Peut-être des visites ici… Certainement des rencontres au Portugal… Avec votre départ je perd une partie de moi. Je perds un peu d’identité. Je perds mes amis. Il y a des moments ou je voudrais arrêter le temps. « Mais si le temps ne changeait jamais, les gens n’aurait aucun sujet de conversation ».
Je peux presque toucher avec mes doigts le jour du Panthéon. Parmi la foule d’erasmus qui était assise par terre, une étrange liaison est née entre nous. Je n’oublierai jamais. Merci à tous pour l’amitié, l’amour, les confidences. Je me sens déjà seule.

Terça-feira, Junho 19, 2007

De olhos vendados no metro


O espírito anda de guarda-chuva. Paris chove e tolda os olhares perdidos no metro. Confusão de tempos e temperaturas. Corpos espremidos, rostos suados, troncos apertados. Linhas que se cruzam num vómito subterrâneo. A “4” ou “cor-de-rosa” leva-me até Saint Michel. É tarde mas o dia teima em não ceder à noite. E o sol disputa-se com a chuva. O meu corpo ressente-se de um cansaço que se estira num gesto da cabeça para trás. Como uma pedrinha atirada para o Canal de Saint Martin. As pingas libertam e fecho os olhos. A rua não se cala e acordo. Subo Saint German, corto para o Panteão, vou até à Mouffetard. Uma casa de bonecas com uns varandins verdes antecede umas ruínas escondidas pela trepadeira. As ruelas estreitam-se. Depois do Hide Out e da caneca de kronenbourg a 3,5 euros, o número 10 de Tournefort surpreende com um espaço familiar. Na montra, livros bilingues e no interior um amontoado cauteloso de letras portuguesas. A placa é tímida mas assinala: “Librairie Portugaise”. A chuva agora é mais quente e Paris mais acolhedor. Vou ao Quartier Latin, em busca daquele café do Hemingway, “Les Deux Magots”. É difícil não variar pelos caminhos que o bairro propõe. E a chuva é cada vez mais oblíqua. Desço até Maubert-Mutualité e vou parar à rua Sommerard. No mesmo dia, a sensação repete-se. Os livros tocam-se com as mãos e devoram-se com um prazer embevecido. Desta vez, é a “Librairie Lusophone”. A maior parte dos títulos em português e um homem de cabelos brancos de leitura. Algumas palavras e uma conversa que podia durar horas. A promessa de me mostrar os traços de António Nobre e Eça de Queiroz, ali bem perto. No bolso, mais uns livros para evitar os olhares sombrios do metro.

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Carina...companheira, colega, amiga, mãe


Paris, Abril de 2007
Sim. Quem diria que havia um dia no futuro, agora passado, naquele dia do passado, enfiadas dentro de um bus, apoiadas no coração de cada uma, que haveriamos de estar, uma vez mais, enfiadas dentro de um RER, apoiadas no coração de cada uma, e em P-A-R-I-S.
Obrigada pela aventura. E, já agora, pelo ombro naquelas horas más de ressaca do dia anterior e da própria vida.